Bacamarteiros
Comum aos festejos juninos e natalinos, a
figura do bacamarteiro anima diversas cidades
do Nordeste, acompanhada por bandas de
pífanos ou zabumbas. Além de ser a garantia de
muito forró, a presença do grupo de bacamarteiros promove também muito barulho.
Os atiradores de bacamarte (armas de fogo de
cano curto e largo) estão sob a direção de um
comandante e são divididos em batalhões.
Durante as apresentações, eles disparam suas
armas, munidas de pólvora seca em homenagem
aos padroeiros do mês de junho.
Em Caruaru
acontece todos os anos o tradicional encontro
de bacamarteiros, vindos de diversas regiões.
Patativa do Assaré
A literatura popular
existe em outros países, mas nenhuma é tão
relevante quanto a do Nordeste (…) Aqui, no
Nordeste, ela resiste e se transforma cada
vez mais.”
Raymond Cantel
Patativa do Assaré, cujo
verdadeiro nome é Antônio Gonçalves da Silva,
nascido no dia 5 de março de 1909 na Serra de
Santana, pequena propriedade rural da
prefeitura de Assaré, ao sul do estado do
Ceará, inclui-se na linhagem dos cantadores
sertanejos de quem ele mantém a tradição.
Oriundo de um meio muito modesto, descobre a
literatura através dos folhetos
de cordel
e dos cantadores, repentistas e violeiros
do Nordeste. Casado, pai de nove filhos,
dedicou sua vida aos trabalhos dos campos de
Assaré, onde reside ainda atualmente. No dia
23 de março de 1995, o presidente Fernando
Henrique Cardoso rendeu uma homenagem pública
ao poeta popular, atualmente cego,
conferindo-lhe a medalha “José de Alencar”
quando de sua passagem a Fortaleza (Ceará)
para a celebração de seu octogésimo sexto
aniversário.
Nessa ocasião foi lançado o disco Patativa
do Assaré: 85 anos de poesia. Patativa do
Assaré, figura emblemática da poesia oral,
tradicional e popular, graças à sua memória
impressionante, recitou trechos de sua obra
que celebram as grandezas e as misérias do
sertão e cantou, acompanhado por Raimundo
Fagner, entre outros, o célebre Vaca
estrela e Boi fubá (símbolo da aflição do
sertanejo diante das amarguras do destino e da
rudeza de sua exploração) que havia
contribuído para a sua notoriedade nacional
nos anos 70. A justaposição deliberada de
alguns elementos de uma sucinta biografia põe
em perspectiva a denominação de “Mestre da
poesia popular” conferida pelo ensaísta e
cineasta Rosemberg Cariry, que largamente
contribuiu para a divulgação de sua obra.
Assim, através da evocação do itinerário
pessoal do poeta e da análise de seus textos
mais representativos, propomo-nos a apresentar
as características essenciais da poesia
popular, examinada aqui em uma dimensão mais
larga, aquela da cultura popular nordestina.
Primeiro ponto de
amarração de nosso estudo, o trabalho que
Raymond Cantel, primeiro pesquisador francês a
se interessar pelo cordel, conduziu durante
longos anos para a descoberta, o conhecimento,
o estudo e a conservação da literatura de
cordel, percorrendo regularmente o Brasil a
partir de 1959 para recolher textos de
repentistas, o que lhe valeu o título de
Embaixador itinerante outorgado pelos
repentistas da Bahia.
Segundo ponto, a aproximação de culturas
populares proposta por Jean-Claude Passeron,
que tenta ir além da atitude relativista (até
mesmo populista), assim como da atitude
legitimista (até mesmo miserabilista).
Terceiro ponto, nosso encontro pessoal com o
poeta, em Assaré, que nos concedeu diversas
entrevistas e nos proporcionou a ocasião de
assistir às suas improvisações.
Uma aproximação da poesia popular
A denominação “poesia popular” foi muitas
vezes associada a um certo número de
representações negativas que a situam no lado
da literatura menor por oposição à
Literatura. As conotações mais correntes que
lhe são conferidas são aquelas das
simplicidade dos temas abordados e das idéias
tratadas, facilidade de versificação e
banalidade das rimas, ingenuidade dos
sentimentos expressos, falta de originalidade
e de criatividade, pobreza de vocabulário,
riqueza estilística limitada, simbólica
indigente.
É nestes termos que Arthur Rimbaud (1854-1891)
confessa seu interesse pela arte popular: “Eu
amava as pinturas idiotas, estofos sobre
portais, cenários, lonas de saltimbancos,
tabuletas, estampas coloridas populares; a
literatura fora de moda, latim de igreja,
livros eróticos sem ortografia, romances de
nossas avós, contos de fadas, livrinhos
infantis, óperas velhas, estribilhos piegas,
ritmos ingênuos”.
Esta concepção se inscreve numa tradição
romântica que compara o povo e a expressão
artística e popular a uma imagem errônea visto
que idealizada, à imagem de um povo bom,
bonachão, trabalhador e virtuoso. De sua
parte, o escritor e filósofo alemão J.G.
Herder (1774-1803), um dos teóricos do
movimento romântico “Sturm und Drang”,
havia defendido, tanto de um ponto de vista
filosófico quanto literário, uma concepção da
história segundo a qual os diferentes tipos de
civilizações e de culturas seriam a expressão
da alma popular, opondo ao ideal clássico —
resultado do respeito a regras claramente
enunciadas e respeitoso dos modelos da
Antigüidade greco-romana — o gênio popular,
expressão natural e espontânea. A poesia
popular, segundo ele, é “a obra anônima do
Homem Natural, irmão histórico do Bom
Selvagem: ela é a “Naturpoesia”.
Nesta idéia, já estava presente a aproximação
que havia proposto Montaigne (1553 - 1592),
persuadido de que o povo era capaz de se
exprimir espontaneamente: “A poesia natural e
puramente natural possui ingenuidade e graça,
por onde ela se compara à principal beleza da
poesia perfeita segundo a arte: como se vê em
vilarejos da gasconha e nas canções que se nos
relatam sobre nações que não possuem
conhecimento de ciência alguma, tampouco de
escrita”.
Em outros termos, a poesia popular existiria
ao largo de toda aprendizagem ou respeito às
regras acadêmicas e apresentaria êxitos dignos
de serem reconhecidos.
No contexto nordestino,
é preciso recordar que a poesia popular
inscreve-se na tradição oral desta região do
interior: um de seus principais agentes, o
cantador, proveniente do meio rural, em geral
analfabeto, improvisa ou narra, graças à sua
memória prodigiosa, “a história dos homens
famosos da região, os acontecimentos maiores,
as aventuras de caçadas e de derrubas de
touros, enfrentando os adversários nos
desafios que duram horas e noites inteiras,
numa exibição assombrosa de imaginação, brilho
e singularidade na cultura tradicional”.
A versificação utilizada, em geral a sextilha
hexassilábica ou a décima
heptassilábica de rimas contínuas,
parece mais ser a expressão de uma técnica
de memorização do que a expressão de uma
forma poética erudita, a serviço da
transmissão de um “saber simbólico: ciência,
cultura popular, tradição”.
Daí, a escansão dos poemas propriamente é
muitas vezes surpreendente pela sua falta de
preocupação expressiva: “Nenhuma preocupação
de desenho melódico, de música bonita.
Monotonia. Pobreza. Ingenuidade.
Primitivismo. Uniformidade… Não se guarda a
música de colcheias, martelos e ligeiras. A
única obrigação é respeitar o ritmo do verso”.
A declamação se atém ao essencial: a narrativa
dos acontecimentos.
A convivência com os
chamados textos de poesia clássica assim como
a leitura da obra de Patativa de Assaré
permitem pôr em perspectiva esta primeira
aproximação e interrogar a conformidade destas
conotações evocadas precedentemente. Sem
dúvida, conviria debruçar-se mais adiante
sobre as temáticas abordadas para aperceber-se
de que, sob esta aparente ingenuidade,
esconde-se uma profunda experiência da vida
quotidiana que confere uma dimensão simbólica
determinante à sua obra. Com efeito, como
ressalta Claude Roy, “o que nos toca do nosso
folclore não é ele ser a obra “de quem não
sabe”, mas, ao contrário, nascer do sofrimento
e da alegria, da malícia e do coração daqueles
que sabem muito bem. Eles sabem o que é ter
fome ou dor de amor, ir à guerra quando não se
queria ou trabalhar com a última das forças.
E estes encontram muito precisamente, ao longo
do tempo, palavras insubstituíveis para
manifestar sua dor ou sua felicidade, para
embalar suas mágoas ou exprimir sua cólera”.
Restituindo-se a obra de Patativa de Assaré ao
contexto sertanejo, considerando a influência
das tradições dos trovadores, dos repentistas,
dos violeiros e da literatura de cordel,
é forçoso reconhecer na voz do poeta popular o
eco dos sofrimentos, das alegrias e das
desgraças da população nordestina do sertão:
“Poesia telúrica, colhida da terra, dos
roçados como se estivesse apanhando feijão,
arroz, algodão, ou quebrando milho e
arrancando batata e mandioca. Sua inspiração
não é fruto de estudos.
Ela germina dentro de
si como a semente nas entranhas da terra”.
Testemunha então de um modo de vida, mas
também reivindicação de valores próprios,
elaboração de uma identidade. Por isto, ele é
apresentado como o “verdadeiro, autêntico e
legítimo intérprete do sertão”.
Com efeito, uma das dimensões mais marcantes
da obra de Patativa do Assaré é a preocupação
de descrever a vida quotidiana do sertão e,
através deste testemunho, protestar o
reconhecimento da dignidade, da integridade e
da modéstia do camponês sertanejo por oposição
à arrogância do cidadão urbano ou do
brasileiro do sul.
Parece que a afirmação de
sua própria identidade passa mais
freqüentemente pelo confronto com o outro,
como chama atenção o título da compilação:
Cante lá que eu canto cá. Esta última,
composta a partir de uma seleção de textos
feita pelo próprio autor com a intenção de
definir suas preferências literárias, traz o
seguinte subtítulo: “Filosofia de um trovador
nordestino”. É, portanto, referindo-nos de
uma só vez ao conjunto dos poemas publicados e
à vida de Patativa do Assaré que tentaremos
depreender as características próprias da sua
obra.
Fonte: www.palavrarte.com/Artigos_Resenhas/artigos_sylviedebs.htm