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Comum aos festejos juninos e natalinos, a figura do bacamarteiro anima diversas cidades do Nordeste, acompanhada por bandas de pífanos ou zabumbas. Além de ser a garantia de muito forró, a presença do grupo de bacamarteiros promove também muito barulho.


Os atiradores de bacamarte (armas de fogo de cano curto e largo) estão sob a direção de um comandante e são divididos em batalhões. Durante as apresentações, eles disparam suas armas, munidas de pólvora seca em homenagem aos padroeiros do mês de junho.

Em Caruaru acontece todos os anos o tradicional encontro de bacamarteiros, vindos de diversas regiões.

Patativa do Assaré

A literatura popular existe em outros países, mas nenhuma é tão relevante quanto a do Nordeste (…)  Aqui, no Nordeste, ela resiste e se transforma cada vez mais.”[1]     Raymond Cantel

Patativa do Assaré, cujo verdadeiro nome é Antônio Gonçalves da Silva, nascido no dia 5 de março de 1909 na Serra de Santana, pequena propriedade rural da prefeitura de Assaré, ao sul do estado do Ceará, inclui-se na linhagem dos cantadores sertanejos de quem ele mantém a tradição.  Oriundo de um meio muito modesto, descobre a literatura através dos folhetos[2] de cordel[3] e dos cantadores, repentistas e violeiros[4] do Nordeste.  Casado, pai de nove filhos, dedicou sua vida aos trabalhos dos campos de Assaré, onde reside ainda atualmente.  No dia 23 de março de 1995, o presidente Fernando Henrique Cardoso rendeu uma homenagem pública ao poeta popular, atualmente cego, conferindo-lhe a medalha “José de Alencar” quando de sua passagem a Fortaleza (Ceará) para a celebração de seu octogésimo sexto aniversário[5]

Nessa ocasião foi lançado o disco Patativa do Assaré: 85 anos de poesia.  Patativa do Assaré, figura emblemática da poesia oral, tradicional e popular, graças à sua memória impressionante, recitou trechos de sua obra que celebram as grandezas e as misérias do sertão e cantou, acompanhado por Raimundo Fagner, entre outros, o célebre Vaca estrela e Boi fubá (símbolo da aflição do sertanejo diante das amarguras do destino e da rudeza de sua exploração) que havia contribuído para a sua notoriedade nacional nos anos 70.  A justaposição deliberada de alguns elementos de uma sucinta biografia põe em perspectiva a denominação de “Mestre da poesia popular” conferida pelo ensaísta e cineasta Rosemberg Cariry, que largamente contribuiu para a divulgação de sua obra
[6].  Assim, através da evocação do itinerário pessoal do poeta e da análise de seus textos mais representativos, propomo-nos a apresentar as características essenciais da poesia popular, examinada aqui em uma dimensão mais larga, aquela da cultura popular nordestina.

Primeiro ponto de amarração de nosso estudo, o trabalho que Raymond Cantel, primeiro pesquisador francês a se interessar pelo cordel, conduziu durante longos anos para a descoberta, o conhecimento, o estudo e a conservação da literatura de cordel, percorrendo regularmente o Brasil a partir de 1959 para recolher textos de repentistas, o que lhe valeu o título de Embaixador itinerante outorgado pelos repentistas da Bahia[7].  Segundo ponto, a aproximação de culturas populares proposta por Jean-Claude Passeron, que tenta ir além da atitude relativista (até mesmo populista), assim como da atitude legitimista (até mesmo miserabilista)[8].  Terceiro ponto, nosso encontro pessoal com o poeta, em Assaré, que nos concedeu diversas entrevistas e nos proporcionou a ocasião de assistir às suas improvisações.

Uma aproximação da poesia popular


A denominação “poesia popular” foi muitas vezes associada a um certo número de representações negativas que a situam no lado da literatura menor por oposição à Literatura.  As conotações mais correntes que lhe são conferidas são aquelas das simplicidade dos temas abordados e das idéias tratadas, facilidade de versificação e banalidade das rimas, ingenuidade dos sentimentos expressos, falta de originalidade e de criatividade, pobreza de vocabulário, riqueza estilística limitada, simbólica indigente
[9].  É nestes termos que Arthur Rimbaud (1854-1891) confessa seu interesse pela arte popular:  “Eu amava as pinturas idiotas, estofos sobre portais, cenários, lonas de saltimbancos, tabuletas, estampas coloridas populares; a literatura fora de moda, latim de igreja, livros eróticos sem ortografia, romances de nossas avós, contos de fadas, livrinhos infantis, óperas velhas, estribilhos piegas, ritmos ingênuos[10]”.  Esta concepção se inscreve numa tradição romântica que compara o povo e a expressão artística e popular a uma imagem errônea visto que idealizada, à imagem de um povo bom, bonachão, trabalhador e virtuoso.  De sua parte, o escritor e filósofo alemão J.G. Herder (1774-1803), um dos teóricos do movimento romântico “Sturm und Drang”, havia defendido, tanto de um ponto de vista filosófico quanto literário, uma concepção da história segundo a qual os diferentes tipos de civilizações e de culturas seriam a expressão da alma popular, opondo ao ideal clássico — resultado do respeito a regras claramente enunciadas e respeitoso dos modelos da Antigüidade greco-romana — o gênio popular, expressão natural e espontânea.  A poesia popular, segundo ele, é “a obra anônima do Homem Natural, irmão histórico do Bom Selvagem: ela é a “Naturpoesia”[11].  Nesta idéia, já estava presente a aproximação que havia proposto Montaigne (1553 - 1592), persuadido de que o povo era capaz de se exprimir espontaneamente: “A poesia natural e puramente natural possui ingenuidade e graça, por onde ela se compara à principal beleza da poesia perfeita segundo a arte:  como se vê em vilarejos da gasconha e nas canções que se nos relatam sobre nações que não possuem conhecimento de ciência alguma, tampouco de escrita[12]”.  Em outros termos, a poesia popular existiria ao largo de toda aprendizagem ou respeito às regras acadêmicas e apresentaria êxitos dignos de serem reconhecidos.

No contexto nordestino, é preciso recordar que a poesia popular inscreve-se na tradição oral desta região do interior:  um de seus principais agentes, o cantador, proveniente do meio rural, em geral analfabeto, improvisa ou narra, graças à sua memória prodigiosa, “a história dos homens famosos da região, os acontecimentos maiores, as aventuras de caçadas e de derrubas de touros, enfrentando os adversários nos desafios que duram horas e noites inteiras, numa exibição assombrosa de imaginação, brilho e singularidade na cultura tradicional”[13].  A versificação utilizada, em geral a sextilha hexassilábica ou a décima heptassilábica de rimas contínuas[14], parece mais ser a expressão de uma técnica de memorização do que a expressão de uma forma poética erudita, a serviço da transmissão de um “saber simbólico: ciência, cultura popular, tradição”[15].  Daí, a escansão dos poemas propriamente é muitas vezes surpreendente pela sua falta de preocupação expressiva: “Nenhuma preocupação de desenho melódico, de música bonita.  Monotonia.  Pobreza.  Ingenuidade.  Primitivismo.  Uniformidade…  Não se guarda a música de colcheias, martelos e ligeiras.  A única obrigação é respeitar o ritmo do verso”[16].  A declamação se atém ao essencial: a narrativa dos acontecimentos.

A convivência com os chamados textos de poesia clássica assim como a leitura da obra de Patativa de Assaré permitem pôr em perspectiva esta primeira aproximação e interrogar a conformidade destas conotações evocadas precedentemente.  Sem dúvida, conviria debruçar-se mais adiante sobre as temáticas abordadas para aperceber-se de que, sob esta aparente ingenuidade, esconde-se uma profunda experiência da vida quotidiana que confere uma dimensão simbólica determinante à sua obra.  Com efeito, como ressalta Claude Roy, “o que nos toca do nosso folclore não é ele ser a obra “de quem não sabe”, mas, ao contrário, nascer do sofrimento e da alegria, da malícia e do coração daqueles que sabem muito bem.  Eles sabem o que é ter fome ou dor de amor, ir à guerra quando não se queria ou trabalhar com a última das forças.  E estes encontram muito precisamente, ao longo do tempo, palavras insubstituíveis para manifestar sua dor ou sua felicidade, para embalar suas mágoas ou exprimir sua cólera”[17]. Restituindo-se a obra de Patativa de Assaré ao contexto sertanejo, considerando a influência das tradições dos trovadores, dos repentistas, dos violeiros e da literatura de cordel[18], é forçoso reconhecer na voz do poeta popular o eco dos sofrimentos, das alegrias e das desgraças da população nordestina do sertão: “Poesia telúrica, colhida da terra, dos roçados como se estivesse apanhando feijão, arroz, algodão, ou quebrando milho e arrancando batata e mandioca.  Sua inspiração não é fruto de estudos. 

Ela germina dentro de si como a semente nas entranhas da terra”
[19].  Testemunha então de um modo de vida, mas também reivindicação de valores próprios, elaboração de uma identidade.  Por isto, ele é apresentado como o “verdadeiro, autêntico e legítimo intérprete do sertão” [20].  Com efeito, uma das dimensões mais marcantes da obra de Patativa do Assaré é a preocupação de descrever a vida quotidiana do sertão e, através deste testemunho, protestar o reconhecimento da dignidade, da integridade e da modéstia do camponês sertanejo por oposição à arrogância do cidadão urbano ou do brasileiro do sul. 

Parece que a afirmação de sua própria identidade passa mais freqüentemente pelo confronto com o outro, como chama atenção o título da compilação: Cante lá que eu canto cá.  Esta última, composta a partir de uma seleção de textos feita pelo próprio autor com a intenção de definir suas preferências literárias, traz o seguinte subtítulo: “Filosofia de um trovador nordestino”.  É, portanto, referindo-nos de uma só vez ao conjunto dos poemas publicados e à vida de Patativa do Assaré que tentaremos depreender as características próprias da sua obra.

Fonte: www.palavrarte.com/Artigos_Resenhas/artigos_sylviedebs.htm

 

 

 

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