São
João e suas músicas: Uma trajetória de mais de 60
anos
Antônio Vicente Filho - Correio da Paraíba
Quando o assunto é referente ao baião dos festejos
juninos, a primeira expressão que chega à cabeça de
muita gente é de que o gênero é genuinamente
nordestino, mais precisamente das pequenas cidades e
da zona rural.
Puro engano. Quando Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira
oficializaram o gênero com a música “Baião”, grandes
nomes da música popular brasileira já tinham se
inspirados em temas dos festejos juninos nas suas
composições.
Os
festejos têm recebidos alguns abalos com os sons
gerados pelas bandas eletrônicas que invadem a
mídia em geral. Mas. mesmo assim. a boa música
continua viva na memória do povo que sempre apreciou
o autêntico repertório das músicas regionais desde
de Luiz Gonzaga, passando por Jackson do Pandeiro,
Marinês, Trio Nordestino, Dominguinhos, Antonio
Barros, e cultivado por talentos de intérpretes como
Elba Ramalho, Nando Cordel, entre outros.
Antes disso, muita coisa aconteceu, desde a década
de 30 do século passado, para consolidar o gênero.
Até
Carmen Miranda gravou o gênero
Em
1939, a cantora Dalva de Oliveira fez sucesso na
composições de “Pedro, Antonio e João”, de Benedito
Lacerda e Osvaldo Santiago. “Com a filha de
João/Antonio ia se casar/Mas Pedro fugiu com a
noiva/Na hora de ir pro altar/A fogueira está
queimando/O balão está subindo? Antonio estava
chorando/E Pedro estava fugindo/E no fim dessa
história Ao apagar a fogueira/João consolava
Antonio/Que caiu na bebedeira”.
O
grande Lamartine Babo também enveredou na quentura
dos festejos juninos, com a música “Chegou a hora da
fogueira”, gravada na voz de Carmem Miranda, em
1933. “Chegou a hora da fogueira/É noite de São
João/O céu fica todo iluminado/Fica todo estrelado/Pintadinho
de balão/Pensando na cabocla a noite/Também fica uma
fogueira/Dentro do meu coração/Quando eu era
pequenino/De pé no chão/Recortava papel fino/Pra
fazer balão/E o balão ia subindo/Para o azul da
imensidão/Hoje em dia meu destino/N/ao vive em paz/O
balão de papel fino/Já não sobe mais/O balão da
ilusão/Levou pedra e foi ao chão”.
Em
1935, Carmen Miranda faz sucesso na com a música
“Sonho de papel”, de Carlos Braga e Alberto Ribeiro.
“O balão vai subindo/Vem caindo a garoa/O céu é tão
lindo/E a noite é tão boa/São João, São João/Acende
a fogueira meu coração/Sonho de papel/A girar na
escuridão/Soltei em seu louvou/No sonho multicor/Oh!
Meu São João/Meu balão azul/Foi subindo devagar/O
vento que soprou/Meu sonho carregou/Nem vai mais
voltar”.
Na
literatura musical brasileira, o baião surgiu como
gênero popular no dia 22 de maio de 1946 na
composição de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira
“Baião” gravado pelo conjunto vocal Quatro Ases e um
Coringa.
No
início da década de 50 ganhou dimensão internacional
com o baião instrumental “Delicado”, executado ao
cavaquinho por Waldir Azevedo e nas versões
orquestrais dos maestros norte-americanos Stan
Kenton e Percy Farth.
“A
fogueira tá queimando”...
Enquanto nas primeiras composições a música típica
regional trazia mensagens de louvor em exaltação à
cultura nordestina, nas últimas duas décadas a
pancada do ritmo mudou e deu espaço para uma música
de pouca expressão com letras apelativas, de duplo
sentido, numa linguagem totalmente fora da realidade
dos festejos nordestinos.
As
tradições da festa sofreram alguns abalos, quase
acabando o melhor espírito da festa, como o
traduzido na música “Brincadeira na fogueira”, de
Antonio Barros. “Tem tanta fogueira/Tem tanto
balão/Tem tanta brincadeira/Todo mundo no terreiro
faz adivinhação/Meu São João eu não/Meu São João eu
não/Eu não tenho alegria/Só porque não vem/Quem
tanto eu queria/Danei a faca no tronco da
bananeira/Não gostei da brincadeira/Santo Antonio
enganou/Saí correndo/Lá pra beira da fogueira/Ver
meu rosto na bacia/A água se derramou”.
Muitas composições se tornaram clássicos e se
transforma em hino dos festejos juninos em toda a
região.
Muitas dessas obras já completaram meio séculos e
ainda estão levando alegria até onde existe um fole
roncando com muito arrasta-pé no embalo da sanfona,
triângulo e zabumba.
Os
versos “Olha pro céu, meu amor/Vê como ele está
lindo/Olha praquele balão multicor/Como no céu vai
subindo...”, de José Fernandes e Luiz Gonzaga,
tornaram-se o hino dos festejos juninos.
Na
parceria com Zé Dantas e Luiz Gonzaga o povo é
convidado a participar na música “A fogueira tá
queimando/Em homenagem a São João/O forró já
começou/Vamos, gente, arrasta pé nesse salão...”.
Maria e Isabel: a tradição
Quando é mês de junho a concentração festiva lembra
os três santos consagrados para os festejos do mês.
Dia 13 é consagrado a Santo Antonio, o “Santo
Casamenteiro”; 24, São João e 29, São Pedro.
No
livro “Didática do folclore”, de Corina Ruiz,
adaptado por Adriana Portella, está a verdadeira
história dos festejos juninos que vem de muito
tempo.
Revela que Maria, mãe de Jesus, e Isabel eram muito
amigas. Por esse motivo, costumava visitar-se com
freqüência. Um dia Isabel foi à casa de Maria para
contar uma novidade: estava esperando um bebê ao
qual ela daria o nome de João Batista. Ela estava
muito feliz por isso! Mas naquele tempo , sem muitas
opções de comunicação, Maria queria saber de que
forma seria informada sobre o nascimento do pequeno
João Batista. Sendo assim, Isabel combinou que
acenderia uma fogueira bem grande, que pudesse ser
vista à distância. Combinou com Maria que mandaria
erguer um grande mastro com uma boneca sobre ele.
O
tempo passou e, do jeitinho que combinaram, Isabel
fez. Lá de longe Maria avistou o sinal de fumaça,
logo depois viu as labaredas que subiam e desciam.
Ela sorriu e compreendeu a mensagem. Foi visitar a
amiga e a encontrou com um belo bebê nos braços.
Era
o dia 24 de junho. Começou assim, a ser festejado
São João com mastro, fogueira e outras coisas
bonitas, como foguetes, danças e muito mais.